Sugerimos agora um passeio pela outra banda da cidade. Que tal um dia no Leblon? Lá pode-se desfrutar de bares e restaurantes, lojas e livrarias. Prepare-se.
Comece por um bom local para se fazer um desejum, um saboroso café-da-manhã. Uma boa pedida é o Garcia & Rodríguez, casa famosa por contratar padeiros franceses. Lá, há mesas na parte interna e na parte externa. Procure sentar na varanda, então, para curtir o movimento das gentes: pessoal de televisão, senhoras em calça de lycra, políticos de esquerda e da direita etc. Peça um croissant com recheio de catupiry ou queijo palmyra, e para acompanhar, um suco de groselha. Se ouvir que casa não trabalha com esse tipo de produto, diga que quer trufas d´alba e uma taça de chateau latour, para abrir apetite. Enquanto isso, abra um saco de fandangos e uma garrafa de ula-ula, guardados numa mochila, e chame uns garotos de rua para compartilhar seu lanche, tal como um Jesus em santa ceia.
Hora de procurar jornais e revistas, para tomar - como se diz naquelas bandas - um banho de cultura. Em Roma como os romanos. Ou como as romanas, no meu caso. Seja como for, uma boa pedida é a Banca Piauí. Trata-se da primeira banca que se tem notícia que deu nome a uma revista de circulação mensal, cujos os editores são gente séria que não devem ser adeeptos do turismo gonzo. Até porque they´d rather be in Manhattan connected e a esquerda festiva deixou de ser chic. Ainda que no ambiente climatizado, necessário para manter longe o calor senegalês que ousa assolar o bairro, haja à venda exemplares do Herald Tribune e da revista Vanity Fair, peça pela Hora do Povo e pela revista-dvd das Brasileirinhas. Não esqueça de vir vestido com a camiseta com os dizeres "Ahmedidnejad é o cara!", na frente, e "No Irã não há gays: só damos na eencolha", na parte de trás.
Outra coisa importante: não deixe de fotografar bastante os transeuntes, não importa quem seja. Diga, se for admoestado por alguém, que está fazendo um ensaio fotografico sob os auspícios de Sebastião Salgado.
sábado, 30 de janeiro de 2010
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Turismo Gonzo in Rio – um guia.
“A cheap holiday on other´s people misery” - slogan situacionista repetido por John Lydon na abertura da canção “Holiday´s in the sun”, dos Sex Pistols
Embarque num ônibus lotado e permaneça nele por no mínimo uma hora e meia até atingir seu destino. Sente numa poltrona do lado da janela, do lado pelo qual o sol incide. Procure, então, um ônibus sem ar-condicionado. Salte do veículo numa rua apinhada de gente, na qual o pedestre deve lutar por um espaço no meio dos camelôs com espaço conquistado. Desvie dos racks adornados de dvds e programas piratas e atente para a movimentação dos guardas municipais, que podem repentinamente porem-se à caça dos ambulantes nervosos.
Hora de sair da rua: entre em uma igreja evangélica, estilo neopentecostal. Espere para fazer isto na hora de um culto. Certifique-se se o pastor use camisa social branca e gravata e que haja um bom número de pessoas dentro do templo, isto é, lotação de quase 80% dos assentos disponíveis aos fiéis. Sinta a vertigem na hora em que todos cantam e acompanhe os gritos de resposta do público aos sermões em tom frenético do pastor. Se quiser, repare nos perdigotos que saem de sua boca vociferante. Peide à vontade durante sua estadia que não ouvirás reprimendas.
Volte à rua. Hora do lanche: procure uma minivan que sirva cachorro-quente ou uma lanchonete pouco frequentada. Tente gastar menos de três reais – no máximo, hein! Se comer cachorro-quente, evite a maioneses e saboreie o guaraná natural morno e meio azedo.
Arrume uma hospedagem para noite. Há os hotéis baratos e infectos e há também os motéis de subúrbio. Se preferir a primeira opção, tome cuidado na hora de encostar na parede e na hora de deitar-se: passe o olho nos lençóis. Se possível não mexa em nada mais do que o necessário. Se preferir a segunda opção, fique atento para a disponibilidade de transporte para o local. Em ambos os casos, se achar necessário e conveniente, leve uma puta. Se este for o caso, procure uma que cobre “preços populares”. Deixe o aroma do perfume “sofisticado” da moça misture-se ao odor ambiente e aproveite-o. Procure o canal das brasileirinhas se houver tv no quarto. Deixe também o rádio ligado numa emissora bem popular. Mande a moça embora quando achar necessário ou tente jogar uma partida de damas. Quem sabe vocês podem ir depois a um karaokê, regado a cerveja barata.
Este é um dos pacotes mais baratos que temos no momento, senhor.
Embarque num ônibus lotado e permaneça nele por no mínimo uma hora e meia até atingir seu destino. Sente numa poltrona do lado da janela, do lado pelo qual o sol incide. Procure, então, um ônibus sem ar-condicionado. Salte do veículo numa rua apinhada de gente, na qual o pedestre deve lutar por um espaço no meio dos camelôs com espaço conquistado. Desvie dos racks adornados de dvds e programas piratas e atente para a movimentação dos guardas municipais, que podem repentinamente porem-se à caça dos ambulantes nervosos.
Hora de sair da rua: entre em uma igreja evangélica, estilo neopentecostal. Espere para fazer isto na hora de um culto. Certifique-se se o pastor use camisa social branca e gravata e que haja um bom número de pessoas dentro do templo, isto é, lotação de quase 80% dos assentos disponíveis aos fiéis. Sinta a vertigem na hora em que todos cantam e acompanhe os gritos de resposta do público aos sermões em tom frenético do pastor. Se quiser, repare nos perdigotos que saem de sua boca vociferante. Peide à vontade durante sua estadia que não ouvirás reprimendas.
Volte à rua. Hora do lanche: procure uma minivan que sirva cachorro-quente ou uma lanchonete pouco frequentada. Tente gastar menos de três reais – no máximo, hein! Se comer cachorro-quente, evite a maioneses e saboreie o guaraná natural morno e meio azedo.
Arrume uma hospedagem para noite. Há os hotéis baratos e infectos e há também os motéis de subúrbio. Se preferir a primeira opção, tome cuidado na hora de encostar na parede e na hora de deitar-se: passe o olho nos lençóis. Se possível não mexa em nada mais do que o necessário. Se preferir a segunda opção, fique atento para a disponibilidade de transporte para o local. Em ambos os casos, se achar necessário e conveniente, leve uma puta. Se este for o caso, procure uma que cobre “preços populares”. Deixe o aroma do perfume “sofisticado” da moça misture-se ao odor ambiente e aproveite-o. Procure o canal das brasileirinhas se houver tv no quarto. Deixe também o rádio ligado numa emissora bem popular. Mande a moça embora quando achar necessário ou tente jogar uma partida de damas. Quem sabe vocês podem ir depois a um karaokê, regado a cerveja barata.
Este é um dos pacotes mais baratos que temos no momento, senhor.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
The Stranglers - No more heroes
Whatever happened to Leon Trotsky ?
He got an ice pick
That made his ears burn
Whatever happened to dear old Lenny ?
The great Elmyra, and Sancho Panza ?
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to all the heroes ?
All the Shakespearoes ?
They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
No more heroes any more
No more heroes any more
Whatever happened to all the heroes ?
All the Shakespearoes ?
They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
No more heroes any more
No more heroes any more
http://www.youtube.com/watch?v=Pg2np37JNEg
Essa banda tem coisas impagáveis. Costumava por umas garotas de peito de fora nos shows. Eram chamados de sexistas pela imprensa. Velhos demais e sexistas demais pra serem considerados punks durante a explosão do movimento nos anos 70.
Lançou coisas boas nesta época, mas nos anos 80 se abregalhou. Mas, de qualquer forma, foda-se.
He got an ice pick
That made his ears burn
Whatever happened to dear old Lenny ?
The great Elmyra, and Sancho Panza ?
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to all the heroes ?
All the Shakespearoes ?
They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
No more heroes any more
No more heroes any more
Whatever happened to all the heroes ?
All the Shakespearoes ?
They watched their Rome burn
Whatever happened to the heroes ?
Whatever happened to the heroes ?
No more heroes any more
No more heroes any more
http://www.youtube.com/watch?v=Pg2np37JNEg
Essa banda tem coisas impagáveis. Costumava por umas garotas de peito de fora nos shows. Eram chamados de sexistas pela imprensa. Velhos demais e sexistas demais pra serem considerados punks durante a explosão do movimento nos anos 70.
Lançou coisas boas nesta época, mas nos anos 80 se abregalhou. Mas, de qualquer forma, foda-se.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Testemunhos de brasileiros no Haiti
Trata-se de um blog de pesquisadores brasileiros, que se encontravam no Haiti, quando ocorreu o terromoto, e lá permanecem. O "Globo" de hoje, 16/01/10, publicou uma mensagem postada dia 13:
Haiti: estamos abandonados
13 13UTC Janeiro 13UTC 2010
A noite de ontem foi a coisa mais extraordinária de minha vida. Deitado do lado de fora da casa onde estamos hospedados, ao som das cantorias religiosas que tomaram lugar nas ruas ao redor e banhado por um estrelado e maravilhoso céu caribenho, imagens iam e vinham. No entanto, não escrevo este pequeno texto para alimentar a avidez sádica de um mundo já farto de imagens de sofrimento.
O que presenciamos ontem no Haiti foi muito mais do que um forte terremoto. Foi a destruição do centro de um país sempre renegado pelo mundo. Foi o resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira república negra do mundo. Os haitianos pagam diariamente por esta ousadia.
O que o Brasil e a ONU fizeram em seis anos de ocupação no Haiti? As casas feitas de areia, a falta de hospitais, a falta de escolas, o lixo. Alguns desses problemas foram resolvidos com a presença de milhares de militares de todo mundo?
A ONU gasta meio bilhão de dólares por ano para fazer do Haiti um teste de guerra. Ontem pela manhã estivemos no BRABATT, o principal Batalhão Brasileiro da Minustah. Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país.
Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela?
Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros.
Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah.
A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados.
A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade.
Me incomoda a ânsia por tragédias da mídia brasileira e internacional. Acho louvável a postura de nossa fotógrafa de não sair às ruas de Porto Príncipe para fotografar coisas destruídas e pessoas mortas. Acredito que nenhum de nós gostaria de compartilhar, um pouco que seja, o que passamos ontem.
Infelizmente precisamos de mais uma calamidade para notarmos a existência do Haiti. Para nós, que estamos aqui, a ligação com esse povo e esse país será agora ainda mais difícil de ser quebrada.
Espero que todos os que estão acompanhando o desenrolar desta tragédia também se atentem, antes tarde do que nunca, para este pequeno povo nesta pequena metade de ilha que deu a luz a uma criatividade, uma vontade de viver e uma luta tão invejáveis.
Outro relato que me chamou a atenção foi a recepção que eles tiveram da embaixada brasileira, que teria, literalmente, mandado eles se virarem:
Nossa embaixatriz: notas sobre a atuação diplomática
16 16UTC Janeiro 16UTC 2010 Após conversar com nossos colegas do Viva Rio, diante da chegada de novos quadros desta organização em Porto Príncipe e em função de uma situação volátil, que muda a cada instante do que diz respeito ao acesso à água e comida, optamos por pedir abrigo à embaixada do Brasil. Diga-se de passagem, há dias amigos e parentes do Brasil insistem em que deveríamos recorrer à embaixada. Afinal, somos um grupo de brasileiros que viu seu trabalho no Haiti interrompido pela violência do terremoto, e estamos na expectativa do que fazer: ficamos e ajudamos? Podemos ajudar? Ou devemos partir para o Brasil em meio uma situação incerta e que se agrava todos os dias? E se decidimos partir, como partir? Seguindo a orientação de nossos colegas do Viva Rio, nos preparamos para seguir para a embaixada hoje pela manhã. Acordamos às 6 da manhã, após mais uma noite dormindo no jardim, e nos preparamos para esperar o veículo que viria nos buscar.
Ela irrompeu o portão do Viva Rio por volta das 8:30 da manhã e pediu que nos chamassem. Trazia um vestido curto algo entre o roxo e o verde, quase um furta cor, apresentava uma expressão rígida e abatida. Na certa estava tocada pelos últimos eventos. Os cabelos devidamente penteados pra trás, uma maquiagem excessiva e um colar de ouro ostensivo. Enquanto permanecíamos na sombra, ela se manteve no sol. Aos poucos, enquanto sua proeminente testa e suas bochechas se enchiam de suor, ela discorreu sobre grandes temas, aliando ciência, religião e política de maneira única. Em poucos minutos, a embaixatriz do Brasil no Haiti explicou por que um rabino, as placas tectônicas, seu marido, os mortos e o Brasil eram interdependentes.
Ela não nos perguntou nada. Não sabia quem éramos, ou o que fazíamos aqui. Quando soube que de um grupo da Unicamp se tratava, não titubeou: “A EMBAIXADA NÃO TEM NENHUM COMPROMISSO COM A UNICAMP. O EMBAIXADOR PROIBIU QUE FOSSEM HOSPEDADOS EM NOSSAS DEPENDÊNCIAS. ELE É O EMBAIXADOR, ELE MANDA; SE HOSPEDAMOS VOCÊS TEMOS QUE HOSPEDAR TODOS”.
E seguiu, com pérolas: “A EMBAIXADA NÃO VAI EVACUAR NINGUÉM PORQUE EU NÃO VOU SAIR DAQUI. VOCÊS DEVEM VOLTAR PARA O BRASIL COMO VIERAM. VOCÊS SABEM ONDE FICA O AEROPORTO, COMPREM PASSAGEM; VOCÊS SABEM ONDE FICA A RODOVIÁRIA, DE LÁ SAEM ÔNIBUS PARA A REPÚBLICA DOMINICANA”. E prosseguiu com a máxima: “NÃO TEMOS NENHUMA RESPONSABILIDADE SOBRE VOCÊS. VOCÊS ESTAVAM NO LUGAR ERRADO NA HORA ERRADA, SINTO MUITO”.
Poderíamos reproduzir detalhes de suas observações sobre a situação atual do Haiti ou sobre a política haitiana. Não o fazemos porque, com franqueza, sentimos vergonha alheia. Seu auto-centramento e sua falta de sensibilidade quanto aos impasses vividos pelos haitianos não fizeram nada além de nos constranger: ela pode ocupar a posição que ocupa?
Nos restringiremos àqueles elementos que nos afetam diretamente: pode uma embaixatriz simplesmente dizer “VOCÊS ESTÃO PROIBIDOS DE SE HOSPEDAR NA EMBAIXADA”? Ela não nos perguntou nada, não sabe da nossa situação, nada. Suponhamos que tivéssemos passagens de avião saindo de Porto Príncipe. Como chegar ao aeroporto? Não há transporte, não há combustível. Porto Príncipe é uma cidade grande e destruída. A “rodoviária”, na verdade, não existe, é a garagem da Caribe Tours, de onde saem os ônibus diários para Santo Domingo, e fica em Pétionville. Como chegar a Pétionville? Há lugares no ônibus? Os telefones estão colapsados. Pode o Brasil ter como representante neste país alguém que manifesta tamanho descaso por seus concidadãos abdicando das obrigações mínimas de uma embaixada em qualquer lugar do mundo? O que o Haiti pode esperar de embaixador e embaixatriz que atuam desta maneira? O que aconteceu conosco não tem a menor importância. Só é revelador do lugar que o Haiti parece realmente ocupar no universo de nossas relações internacionais.
http://lacitadelle.wordpress.com/
Haiti: estamos abandonados
13 13UTC Janeiro 13UTC 2010
A noite de ontem foi a coisa mais extraordinária de minha vida. Deitado do lado de fora da casa onde estamos hospedados, ao som das cantorias religiosas que tomaram lugar nas ruas ao redor e banhado por um estrelado e maravilhoso céu caribenho, imagens iam e vinham. No entanto, não escrevo este pequeno texto para alimentar a avidez sádica de um mundo já farto de imagens de sofrimento.
O que presenciamos ontem no Haiti foi muito mais do que um forte terremoto. Foi a destruição do centro de um país sempre renegado pelo mundo. Foi o resultado de intervenções, massacres e ocupações que sempre tentaram calar a primeira república negra do mundo. Os haitianos pagam diariamente por esta ousadia.
O que o Brasil e a ONU fizeram em seis anos de ocupação no Haiti? As casas feitas de areia, a falta de hospitais, a falta de escolas, o lixo. Alguns desses problemas foram resolvidos com a presença de milhares de militares de todo mundo?
A ONU gasta meio bilhão de dólares por ano para fazer do Haiti um teste de guerra. Ontem pela manhã estivemos no BRABATT, o principal Batalhão Brasileiro da Minustah. Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas. Infelizmente isto é o melhor que podemos fazer a este país.
Hoje, dia 13 de janeiro, o povo haitiano está se perguntando mais do que nunca: onde está a Minustah quando precisamos dela?
Posso responder a esta pergunta: a Minustah está removendo os escombros dos hotéis de luxo onde se hospedavam ricos hóspedes estrangeiros.
Longe de mim ser contra qualquer medida nesse sentido, mesmo porque, por sermos estrangeiros e brancos, também poderíamos necessitar de qualquer apoio que pudesse vir da Minustah.
A realidade, no entanto, já nos mostra o desfecho dessa tragédia – o povo haitiano será o último a ser atendido, e se possível. O que vimos pela cidade hoje e o que ouvimos dos haitianos é: estamos abandonados.
A polícia haitiana, frágil e pequena, já está cumprindo muito bem seu papel – resguardar supermercados destruídos de uma população pobre e faminta. Como de praxe, colocando a propriedade na frente da humanidade.
Me incomoda a ânsia por tragédias da mídia brasileira e internacional. Acho louvável a postura de nossa fotógrafa de não sair às ruas de Porto Príncipe para fotografar coisas destruídas e pessoas mortas. Acredito que nenhum de nós gostaria de compartilhar, um pouco que seja, o que passamos ontem.
Infelizmente precisamos de mais uma calamidade para notarmos a existência do Haiti. Para nós, que estamos aqui, a ligação com esse povo e esse país será agora ainda mais difícil de ser quebrada.
Espero que todos os que estão acompanhando o desenrolar desta tragédia também se atentem, antes tarde do que nunca, para este pequeno povo nesta pequena metade de ilha que deu a luz a uma criatividade, uma vontade de viver e uma luta tão invejáveis.
Outro relato que me chamou a atenção foi a recepção que eles tiveram da embaixada brasileira, que teria, literalmente, mandado eles se virarem:
Nossa embaixatriz: notas sobre a atuação diplomática
16 16UTC Janeiro 16UTC 2010 Após conversar com nossos colegas do Viva Rio, diante da chegada de novos quadros desta organização em Porto Príncipe e em função de uma situação volátil, que muda a cada instante do que diz respeito ao acesso à água e comida, optamos por pedir abrigo à embaixada do Brasil. Diga-se de passagem, há dias amigos e parentes do Brasil insistem em que deveríamos recorrer à embaixada. Afinal, somos um grupo de brasileiros que viu seu trabalho no Haiti interrompido pela violência do terremoto, e estamos na expectativa do que fazer: ficamos e ajudamos? Podemos ajudar? Ou devemos partir para o Brasil em meio uma situação incerta e que se agrava todos os dias? E se decidimos partir, como partir? Seguindo a orientação de nossos colegas do Viva Rio, nos preparamos para seguir para a embaixada hoje pela manhã. Acordamos às 6 da manhã, após mais uma noite dormindo no jardim, e nos preparamos para esperar o veículo que viria nos buscar.
Ela irrompeu o portão do Viva Rio por volta das 8:30 da manhã e pediu que nos chamassem. Trazia um vestido curto algo entre o roxo e o verde, quase um furta cor, apresentava uma expressão rígida e abatida. Na certa estava tocada pelos últimos eventos. Os cabelos devidamente penteados pra trás, uma maquiagem excessiva e um colar de ouro ostensivo. Enquanto permanecíamos na sombra, ela se manteve no sol. Aos poucos, enquanto sua proeminente testa e suas bochechas se enchiam de suor, ela discorreu sobre grandes temas, aliando ciência, religião e política de maneira única. Em poucos minutos, a embaixatriz do Brasil no Haiti explicou por que um rabino, as placas tectônicas, seu marido, os mortos e o Brasil eram interdependentes.
Ela não nos perguntou nada. Não sabia quem éramos, ou o que fazíamos aqui. Quando soube que de um grupo da Unicamp se tratava, não titubeou: “A EMBAIXADA NÃO TEM NENHUM COMPROMISSO COM A UNICAMP. O EMBAIXADOR PROIBIU QUE FOSSEM HOSPEDADOS EM NOSSAS DEPENDÊNCIAS. ELE É O EMBAIXADOR, ELE MANDA; SE HOSPEDAMOS VOCÊS TEMOS QUE HOSPEDAR TODOS”.
E seguiu, com pérolas: “A EMBAIXADA NÃO VAI EVACUAR NINGUÉM PORQUE EU NÃO VOU SAIR DAQUI. VOCÊS DEVEM VOLTAR PARA O BRASIL COMO VIERAM. VOCÊS SABEM ONDE FICA O AEROPORTO, COMPREM PASSAGEM; VOCÊS SABEM ONDE FICA A RODOVIÁRIA, DE LÁ SAEM ÔNIBUS PARA A REPÚBLICA DOMINICANA”. E prosseguiu com a máxima: “NÃO TEMOS NENHUMA RESPONSABILIDADE SOBRE VOCÊS. VOCÊS ESTAVAM NO LUGAR ERRADO NA HORA ERRADA, SINTO MUITO”.
Poderíamos reproduzir detalhes de suas observações sobre a situação atual do Haiti ou sobre a política haitiana. Não o fazemos porque, com franqueza, sentimos vergonha alheia. Seu auto-centramento e sua falta de sensibilidade quanto aos impasses vividos pelos haitianos não fizeram nada além de nos constranger: ela pode ocupar a posição que ocupa?
Nos restringiremos àqueles elementos que nos afetam diretamente: pode uma embaixatriz simplesmente dizer “VOCÊS ESTÃO PROIBIDOS DE SE HOSPEDAR NA EMBAIXADA”? Ela não nos perguntou nada, não sabe da nossa situação, nada. Suponhamos que tivéssemos passagens de avião saindo de Porto Príncipe. Como chegar ao aeroporto? Não há transporte, não há combustível. Porto Príncipe é uma cidade grande e destruída. A “rodoviária”, na verdade, não existe, é a garagem da Caribe Tours, de onde saem os ônibus diários para Santo Domingo, e fica em Pétionville. Como chegar a Pétionville? Há lugares no ônibus? Os telefones estão colapsados. Pode o Brasil ter como representante neste país alguém que manifesta tamanho descaso por seus concidadãos abdicando das obrigações mínimas de uma embaixada em qualquer lugar do mundo? O que o Haiti pode esperar de embaixador e embaixatriz que atuam desta maneira? O que aconteceu conosco não tem a menor importância. Só é revelador do lugar que o Haiti parece realmente ocupar no universo de nossas relações internacionais.
http://lacitadelle.wordpress.com/
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Considerações sobre "Avatar"
- O que vi era basicamente o que esperava do filme. Não é ruim, mas perde de 10 a 0 de outro filme de sci-fi lançado no ano passado, "Distrito 9" (este sim fodástico). "Avatar" tem um inevitável ar de Disney que não me apetece muito, e o roteiro é pra lá de previsível. No entanto, o que vale é a criação de ambientes, o aspecto "surrealista" dos ambientes da floresta e das montanhas flutuantes, inspiradas nas capas do Yes, como salientou o Anselmo (guardo uns discos velhos da banda, que meu pai tinha, por causa da capa). O que fica melhor ainda em 3D. Então posso dizer que "Avatar" vale não tanto pelo filme em si, mas pelas possibilidades de exploração da animação no cinema - animação de todo o filme que ficou muito bem feita.
- Curioso notar a esculhambação que eles fazem da América neocon em todo filme. Aquele coronel malvado, o vilão mais odiável - junto com o gerente da equipe de exploração, que só pensa em cifrão (se fodendo pra qtos nativos terão que ser mortos pra se explorar os minérios de Pandora) - parece uma mistura de Bush, Schwarznegger e a personagem de Clint Eastwood em "O Destemido Sr. da Guerra" ("suas mocinhas, eu como arame farpado e mijo naplam!", ui!). Acho que até eles puseram falas de Bush e Rumsfeld ipsis leteris na boca do sujeito.
- Nesse caso, parece passar uma mensagem "Al Gore", na linha discurso ecológico. Será pq agora a ala neocon do globalismo tá em baixa, e quem tá por cima é a turma do Mercado Verde, desenvolvimento sustentável, mercado de carbono, controle das emissões e tudo mais? Minha mulher, que manja um pouco mais disso do que eu, disse-me na hora que uma das falas da navi fêmea, o avatar da bela mulata aí de cima, é quase a mesma fala que ela ouviu numa palestra sobre desenvolvimento sustentável.
- "Avatar" é mais um filme que entra na onda "cripto-anunakiana", pra quem está familiarizado com as teorias de Z. Sitchin. Sendo que aqui, os "deuses" somos nós. Então, pode até mesmo se inferir que tudo não passa de uma mistura entre o "12o. Planeta", "Matrix" vista sob a luz lovelockiana e "Dança com Lobos".
- Curioso notar a esculhambação que eles fazem da América neocon em todo filme. Aquele coronel malvado, o vilão mais odiável - junto com o gerente da equipe de exploração, que só pensa em cifrão (se fodendo pra qtos nativos terão que ser mortos pra se explorar os minérios de Pandora) - parece uma mistura de Bush, Schwarznegger e a personagem de Clint Eastwood em "O Destemido Sr. da Guerra" ("suas mocinhas, eu como arame farpado e mijo naplam!", ui!). Acho que até eles puseram falas de Bush e Rumsfeld ipsis leteris na boca do sujeito.
- Nesse caso, parece passar uma mensagem "Al Gore", na linha discurso ecológico. Será pq agora a ala neocon do globalismo tá em baixa, e quem tá por cima é a turma do Mercado Verde, desenvolvimento sustentável, mercado de carbono, controle das emissões e tudo mais? Minha mulher, que manja um pouco mais disso do que eu, disse-me na hora que uma das falas da navi fêmea, o avatar da bela mulata aí de cima, é quase a mesma fala que ela ouviu numa palestra sobre desenvolvimento sustentável.
- "Avatar" é mais um filme que entra na onda "cripto-anunakiana", pra quem está familiarizado com as teorias de Z. Sitchin. Sendo que aqui, os "deuses" somos nós. Então, pode até mesmo se inferir que tudo não passa de uma mistura entre o "12o. Planeta", "Matrix" vista sob a luz lovelockiana e "Dança com Lobos".
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Gran Torino
Perdi esse filme no cinema, mas consegui assisti-lo no dvd. Filmaço. Clint Eastwood, excelente, faz o papel de um ex-veterano da Guerra da Coréia e operário aposentado da Ford no Midwest americano, que depois da morte da esposa, passa a viver sozinho na velha casa da família num bairro que, de brancos de classe média e média-baixa, foi tomado por imigrantes de uma pequena etnia asiática. Com pouco contato com a família, isto é, seus filhos e netos, todos uns interesseiros que querem o colocar no asilo e se apossar dos bens que lhe restam, o velho vence os preconceitos em relaçãos aos vizinhos e desenvolve uma relação com o casal de jovens irmãos que moram na casa ao lado, tornando-se um pai para o garoto adolescente.
O legal do filme é que tem elementos pra desagradar tanto conservadores como a esquerda “líberal” (tal como os norteamericanos usam o termo): o personagem de Eastwood é um descendente de polacos preconceituoso e politicamente incorreto e anda armado, com a cara sinistra e os rosnados que o ator se caracterizou por estampar nas telas. Porém, é ateu e é rude com o jovem padre da paróquia local quando este o interpela por não se confessar ao vigário: “o que um virgem de 27 anos recém saído do seminário tem a dizer a mim sobre a morte?”. Tem antipatia por imigrantes, sobretudo asiáticos (que os fazem lembrar os coreanos que enfrentou na Guerra) mas reconhece na família vizinha mas laços de solidariedade e de respeito do que em sua própria família que ajudou a criar. Além do mais, retrata a degradação urbana que se acometeu de antigas áreas industriais dos EUA nas últimas décadas, fruto da realocação das fábricas em outros lugares do mundo, em busca de custos menores.
O legal do filme é que tem elementos pra desagradar tanto conservadores como a esquerda “líberal” (tal como os norteamericanos usam o termo): o personagem de Eastwood é um descendente de polacos preconceituoso e politicamente incorreto e anda armado, com a cara sinistra e os rosnados que o ator se caracterizou por estampar nas telas. Porém, é ateu e é rude com o jovem padre da paróquia local quando este o interpela por não se confessar ao vigário: “o que um virgem de 27 anos recém saído do seminário tem a dizer a mim sobre a morte?”. Tem antipatia por imigrantes, sobretudo asiáticos (que os fazem lembrar os coreanos que enfrentou na Guerra) mas reconhece na família vizinha mas laços de solidariedade e de respeito do que em sua própria família que ajudou a criar. Além do mais, retrata a degradação urbana que se acometeu de antigas áreas industriais dos EUA nas últimas décadas, fruto da realocação das fábricas em outros lugares do mundo, em busca de custos menores.
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